Renato Maurício Prado: “Pobre menino rico”

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Coluna de Renato Maurício Prado, Jornal O Globo desta sexta-feira:

Quanto vale um sonho? Há fantasias impossíveis, por custos ou questões intangíveis: as amorosas, por exemplo — a bela tenista Maria Sharapova nunca me deu bola! Mas, falando sério, mesmo vivendo num mundo cada vez mais capitalista, ainda há coisas que o dinheiro não compra — como lembra aquela ótima propaganda, antes de arrematar: “para as outras existe cartão de crédito”..
O preâmbulo, claro, é para discutir a questão de Ronaldo Fenômeno e sua opção pelo Corinthians.

Escolha válida, sob o ponto de vista estritamente profissional — embora com deslizes éticos e, acima de tudo, de educação. Mas isso é outra história, que abordarei mais adiante.

Voltemos à questão do sonho. Desde menino, Ronaldo Nazário acalentava o desejo de jogar no Flamengo — time do seu coração.

Quis o destino que do São Cristóvão (onde começou, como amador) se transferisse para o Cruzeiro e de lá para a Europa, onde acumulou fortuna e fama.

Agora, eis que, no apagar das luzes de sua gloriosa carreira, surge enfim a oportunidade de realizar o sonho de menino.

Multimilionário (com mais de 100 milhões de euros na conta, conforme ele próprio gosta de contar) e em recuperação de nova e complicada cirurgia no joelho, que lugar poderia acolhê-lo com mais carinho? Pois foi, justamente, na Gávea, sede do Flamengo, que Ronaldo iniciou o trabalho de recuperação e reencontro com a bola.

Lá, também, logo no primeiro dia, ouviu do presidente Márcio Braga as boas vindas e a garantia de que, quando resolvesse voltar a jogar o rubro-negro moveria céus e terras para atender aos seus anseios e contratálo por salário à altura de seu valor no mercado.

— É só dizer quando você se sentir em condições e a gente discute e dá um jeito! A bola está contigo. Até lá, o clube é seu. Use e abuse — disse Márcio Braga.

— Jogar no Flamengo sempre foi o meu sonho. Ele é o favorito. Está na “pole position” (para acertar a contratação) e eu quero estar muito bem (fisicamente) para merecer vestir a camisa rubro-negra. Decido em janeiro! — anunciou Ronaldo, no “Bem, Amigos”, no Sportv, após três meses de treinos.

De lá pra cá, entretanto, o Fenômeno, curiosamente, desapareceu da Gávea.

A mim, explicou que sofrera uma contusão leve, que o impedia de treinar e, por isso, passara a fazer fisioterapia em sua própria clínica.

No Flamengo, as versões foram outras: houve quem falasse em crise familiar (sua mulher estaria querendo voltar a morar em Paris), houve quem desconfiasse que o problema era mais sério — e a possibilidade de encerramento da carreira ganhou força quando, após se arrastar em campo, por apenas 15 minutos, no amistoso beneficente entre seus amigos e os de Zidane, realizado no mês passado, no Marrocos, o próprio Ronaldo (bem acima do peso) se disse em dúvidas sobre o futuro.

Futuro resolvido esta semana, meio de sopetão e sem que o jogador nem sequer tivesse retomado os treinamentos ou a conversa com os dirigentes do Fla.

Detalhe: o dinheiro que Ronaldo vai ganhar no Parque São Jorge (e que dificilmente será assim tão maior do que o Flamengo poderia lhe pagar, com ações de marketing do mesmo teor) não mudará em nada a sua vida — em aplicações banais, com o que já possui, ele fatura, por mês, mais de 1 milhão de euros.

Isto, fora os três contratos de publicidade que ainda tem em vigor e independem de onde jogará (TIM, Nike e Ambev).

Resumo da ópera: por maior que seja o sucesso dos planos corintianos, o resultado final representará uma ninharia perto do patrimônio Fenomenal.

Aí, volto a questão básica.

Quanto vale um sonho? Há quem trabalhe a vida inteira para juntar dinheiro e realizar o seu. E o Fenômeno ainda iria ganhar (algo semelhante ao que lhe pagarão agora) para isso.

Mas mesmo não precisando de nem mais um tostão para realizar até as fantasias de suas gerações futuras, Ronaldo abriu mão daquele que dizia ser um dos seus maiores sonhos.

Pobre menino rico! Não conseguiu entender a propaganda: cartão de crédito ele já tem de sobra…

Em tempo: Ronaldo deveria ter sido, no mínimo, educado e agradecido ao Fla a forma como foi recebido e tratado nos meses em que se recuperou na Gávea. Não ter nem sequer dado um telefonema para avisar que recebera uma proposta do Corinthians — e estava estudando aceitála — é inexplicável e imperdoável.

Mas, cá entre nós, os dirigentes do Fla também, poderiam ter procurado conversar com o Fenômeno quando começaram a pipocar aqui e ali notícias do interesse corintiano…

Quem vendeu o sonho do Fenômeno? Fabiano Farah, seu procurador desde que os antigos empresários, Reinaldo Pita e Alexandre Martins, foram presos.

Farah foi também o responsável pela ida de Morais, do Vasco, para o Corinthians.

Deve ser adorado pelas duas maiores torcidas do Rio…cias do interesse corintiano…

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9 Responses to Renato Maurício Prado: “Pobre menino rico”

  1. Andréa disse:

    melhor texto que eu li sobre a novela Ronaldo…

  2. [CRF] Diego Almeida disse:

    Camisa do Fla: R$150,00
    Ingresso pro jogo: R$15,00
    Cerveja fora do estádio: R$2,50
    Ver o Fofômeno perdendo um pênalti e o Flamengo vencendo o Corinthians: não tem preço.

    Tem coisas na vida que não tem preço;
    para todas as outras existe o Flamengo: o único que te dá a alegria de ver um desertor mercenário se arrepender de ter abandonado o Maior do Mundo.

  3. É preciso lembrar (e ninguém OUSA tocar no assunto) que o Ronaldo é EXCLUSIVO da Nike. O Mengão tá “rachando” com eles e fechando com a Olimpikus (claro, é muito mais grana). Por isso a Nike “puniu” o Mengão e OBRIGOU o Ronaldo a assinar com o Curintia. Só não vê (e não publica isso) quem não quer. Todas as evidências apontam nesta direção. É o patrocinador que manda. Como o Ronaldo iria vestir o MANTO SAGRADO, sem o logotipo da Nike? A saída dele é “inventar” que o Mengão não fez proposta. Como bem disse Márcio Braga “para que procurá-lo se ele já estava “achado”. Perfeito.
    Paulo R Morani
    Rio de Janeiro

  4. [CRF] Diego Almeida disse:

    Acho que o cidadão do comentário acima está equivocado. Afinal, o Ronaldo atuou pelo Milan que tinha como fornecedora de material esportivo a Adidas e não a Nike.
    Esse fato pode até ter pesado na conta pra escolha do Ronaldo, mas daí dizer que a Nike “puniu” o Flamengo e “obrigou” o Ronaldo a jogar no Corinthians é invenção demais pra mim.
    Abs

  5. Fernando disse:

    O motivo real ainda vai aparecer, esse papo de nao ter feito proposta é muita historinha pro meu gosto…..

    Alguma coisa a mais tem, só ainda nao sabemos qual é….

  6. Marcelo disse:

    Nossa, que comentário mais flamenguista….Vindo de um jornalista chega a ser nojento, se fosse na página de uma torcida do flamengo até entenderia….

  7. Thiago disse:

    Pau no cu do traveco!!
    Nojento nada. Foi o único que teve coragem de expor os fatos. Todo mundo babando ovo por corinthians e ronaldo e o cara se preocupando e dando satisfação pra torcida rubro-negra. Ta mais do que certo. To com o RMP!
    Saudações Rubro-Negras!

  8. Leonardo disse:

    Renato, parabéns pela coluna, e digo mais, ainda virão muitas polêmicas tratando-se desta tal kra chamado ronaldo, a dor que remói o coração dele por não estar no Jogando no Flamengo, no maior do mundo junto com o Adriano, estraçalha o coração dele, por isso aonde ele vai ele lembra do nosso querido FLA.. FATO!

  9. João disse:

    Perfeito, mais uma vez Renato Mauricio Prado foi perfeito em seu comentário. Faço minhas as palavras dele!

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